29 de janeiro de 2009

Janeiro, 25

e era dia de
amargar com seu cigarro
com o gosto de na sua boca
nada daquele gosto menta
infância pureza e ou castidade
que freia defende
das pastilhas baratas
vendidas pelos garotos no semáforo
Paulista X Augusta
quando não limpam pára
-brisas ou pedem
no nosso meio-beijo despedida
o não saber se voltará ou esse verbo
esse mesmo verbo
na primeira pessoa do plural do futuro indicativo.

e era dia de
desvendar sem mapas
nossos caminhos espalhados pelo corpo
em todos os anos até agora e aqui
nas inúmeras tatuagens
se fosse calor de quase nudez e suores
os trinta graus e mais
meu olhar bem perto
a pele os poros e pelos
com calma típica interior
que é meu avesso e não deixa de
enquanto citássemos dizendo billy corgan
suffer my desire for you - suffer my desire
ou qualquer verso que fosse
intensidade a nossa.

e era dia de
a noite cair alaranjando
os olhos da cidade adormecendo lentos
entre os barulhos de poetas ama-dores
na mesa com cervejas e
as buzinas alardeando por outros
nosso admitir não querer e ser detalhes
nos meus gestos significando sempre
sempre um demais mesmo quando estátua
e enquanto caminhássemos apressados para
o salto o nosso e estilhaçar-se
na realidade absurda
tentar prender as últimas ilusões
linha frágil entre os trilhos e a plataforma do
consolação, tentar mas não.

23 de janeiro de 2009

Sobre você no hospital, ás 20:48.

a palavra não é querer
é precisar

me livrar
desse medo de te perder
de repente
poupar sentimento

- mesmo quando dentro de mim
bagunça aquela
ideia fixa
(a falta de acento
me faz pronunciar rígida
como não fosse rigidez a)
morte

o silêncio você rompe
você tem cheiro de fumaça
desperto
eu sei
cigarros são instantes
away from you
mas digo
eu tenho cheiro de fumaça

agora
emergência
seu traje branco
e as paredes
obrigam a calma

quando me desejam
trágica
- ardentemente trágica

porque não basta o dentro
deve haver lágrimas
muitas
mas para eles
você entende
sempre para eles.

preciso lamber meus filhos
antes que seja tarde, mãe.

(antes que seja tarde,
preciso lambê-los.)

19 de janeiro de 2009

Trying

minhas palavras em conta-gotas. você sabe o que é isso. pergunto. em quantas voltas vamos nos perder de nós. eu sinto minhas mãos congeladas. acreditar acreditar na palavra escrita. sem olhar. são flocos de neves que caem e se amontoam em nós até a cabeça. estou na metade. e não há o que dizer. o que será do fim. então eu minto risadas. eu perco meu esmalte nas unhas. meus cabelos despontados bagunçados você arruma. mas quem contem meu ventre andando solto como só em amor quando não há. é uma tristeza que me come pelas beiradas. e eu evito esse assunto. eu disfarço. ou acho que. eu me engano. repetindo e repetindo outras vozes. dezenas de livros. e goles. e tragos. vamos acabar nos matando.

15 de janeiro de 2009

II

da poesia, essa dor:

rasga meu peito
esquerdo e direito
a insistência
procurar e inspirar e escrever
com os estilhaços
do labirinto eu
carne-viva
verbo ou hemorragiando-se
esse de ou em tanto amor
refletir poetas
y todos los otros muertos
revirar e viver repetindo
passados meus
só no parecer
da palavra escrita.

13 de janeiro de 2009

I

da palavra, bendita:

ou do que foi por tempos o silêncio
se não, não há lágrima.
porque logo eu
tão in na condição humana
resisto à tentação
da dor mesmo mínima
aquela
de esbarrar os hematomas em cantos invisíveis
coçar feridas que já são cicatrizes
do que diria Joni Mitchell
re e romantizar o que não
além de mim.
porque eu sei que se
será um afogamento.

7 de janeiro de 2009

As estações são bailados de lembranças de um fim pré-suposto

Primavera

porque aquelas tantas flores e cores eram apenas exterior naquela primavera de um ano que não sei mais. dentro de mim era um cinza de lembranças do fim pré-sentido. poeira nas fotografias em preto e branco e o antigo que se faz presente irremediavelmente. o fado mais triste insistia, aqueles tão morte. e as pessoas que dançavam e rodavam e caminhavam pelas ruas eram bossa-nova. você com seu guarda-sol enorme colhendo flores, antes do temporal. sem perceber que era o temporal todos aqueles anúncios de alegria em out-doors invisíveis e aquele amor nosso que parecia tão contrário quando falávamos de fim. porque a vida insistia dessa maneira. um eterno rasgar a pele e sarar após e até no tempo e re-rasgar e nós numa repetição em acreditar. e desde então e agora. essas tantas flores e cores apenas exterior.

Verão

sempre esse mormaço verão me lembrando você. a maneira como penetra no corpo e aquece até o ponto quase desmaio de tantas lembranças. eu acordando sempre suada, o banho frio ás 6 da manhã que nunca foi antes de você, mas que durante. e os vestidos leves, as pernas á mostra, o nosso cheiro sempre no ar. o meu pitanga e o teu homem. eu chegava no teu pescoço e te cheirava. eu parava de respirar para te cheirar. sempre ofegando, a sensualidade brotava. e depois de amar quando eu abria a janela, nenhum sol. nenhum. as nuvens meio cinzas cobriam tudo. eu não acreditava. era um calor com tristeza e eu não queria acreditar. uma tristeza que aquecia. uma transformação lenta. e era você. ainda é, mas hoje diferente e tão. como se eu estivesse preparada para não me entregar. os pés, os braços por pouco tempo na água morna. o rosto na água fria acordar só. o corpo todo coberto. as partes que não são, eu rabisco. até a indiferença aparecer, mas. depois de tanto tempo e você ainda. ainda no ar. eu desisto. desmaio.

Outono

e o outono insistia. batia portas, derrubava os quadros, estilhaçava as vidraças do que era frágil. o que poderia ser apenas e obviamente anúncio de tempestade ou da estação seguinte inverno ou qualquer qualquer outra coisa passageira era o alarme do adeus inevitável. e desde então e agora. essa ausência dentro. no silêncio e no meio de tudo que restou passado: teu retirar meus cabelos da face e segurar minha saia durante o vendaval e além de todas as coisas e principalmente me segurar porque eu nunca soube se permanecia ou não. tuas tantas mãos. teus tantos você. até o limite sustentável da conveniência. o acender da tristeza. a desfolhação era interna e minha, o resto insistia. as flores folhas e cores presas nos galhos fingindo-se intactas. quando percebi já era cinza o só eu. e desde então e agora essa mesma nuvem pairando. eu assisto essa estação em mim.

Inverno

o inverno sempre como teu abandono. minhas lágrimas caindo como e com a chuva. enquanto nossos corpos deitados na areia. esparramados no pouco que ainda restava do que éramos. e a eterna espera pelo além do presente. aquele mar em revolta nos alcançava como presságio e impossibilidade de fuga. a chuva nos molhando e o mar e minhas lágrimas, porquê chorar o fim que ainda não. minhas lágrimas e você as lambia. você lambia meu corpo inteiro como um passeio. tua saliva me invadindo poro por poro. e você sem discriminar o que era eu ou você ou a natureza daquela conexão absurda. e logo o suor de você me penetrando e toda. toda aquela água lubrificando o sofrimento. tentativa vã para não doer aquele mistério do após. e eu não pude sequer ouvir ofegando. o gozo. o último. meus dentes cravados no teu ombro até ir morrendo lentamente. tantas cicatrizes e tantas invisíveis e internas. o que era líquido e depois foi concretizando-se. do que sobrou chuva e lágrimas nessa estação. a necessidade de sempre guarda-chuva.