27 de fevereiro de 2009

carrego mágoas enormes
nos bolsos do casaco:
esse repetir dores imaginárias
e repetir repetir até acreditar.

sou um viaduto carneosso
não ergo meu corpo do asfalto.
o peso, disfarço
enquanto amarro os sapatos.

*

Também postado no Blog de 7 Cabeças

*

Então, Stephanie Borges escreveu:

sobretudos

para Lubiana,

mágoas ajuntam-se
bilhetes velhos
guardanapos restos
de noite suja, meu batom carmim
maços de cigarros
cartões postais de visita
coagulam nos bolsos
rascunhos abandonados
de vertiginosa biografia

ele me diria
- é simples caso
de trocar a roupa:
vestidos a realçar
a tua tez
- talvez, não fosse
fato dos bolsos
guardarem tanto um mais

lastro necessário
pra manter o prumo, fundo
a penetrar e cortar
superfícies,
proa para aléns
des-conhecidos

minhas águas
estancam lágrimas
chuva fina disfarça
e deposita umidez
pegajosa, dificulta
o desapego, friozinho
me mantém encasacada

dissesse nada e num abraço
ele me abrisse
caminhos por onde se vão
frios, abrigos, necessidades
de me manter vestida -
num intervalo
entre a cama e o dia,
possivelmente convencesse -
limpa os bolsos

restaria apenas o peso
exato pra encaixar bem
nossos corpos,
sem me deixar levar até
flagrar-me à deriva

rasgam-se maços
de velhos vícios, cartas
de desperdício
alimentam a chama voraz
do esquecimento,
desacretido dores
fantasmimaginárias

e sem pretender levezas outras
ergo tímida um pé
num passo em falso - nos bolsos
folhas em branco ansiariam
trechos rasuras recuerdos
desse outro [novo?] relato

9 comentários:

.lucas guedes disse...

jogue fora.
o casaco.

Artemis disse...

.lucas foi preciso. E precisamos conversar.
Beijo.

Marrí disse...

Gigante,
em poucas palavras.

Meu corpo, dolorido
sente a carne trêmula
de tanto soluçar...

Rayanne disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rayanne disse...

Viaduto carneosso
Entre ser e alma
entre a dor e a calma.
Viaduto sobre um poço
Sobra passo
Para o abraço
É o que nos salva.


**Estrelasempre**

geo. disse...

preciso dizer que é lindo?
pois é lindo.

me sinto assim, sabia?

e aí, eu cito outra do zeca: "fumando ópio pra sarar a dor"

além disso o viaduto, o asfalto, a cidade e são paulo, me trazem a solidão por si só. e eu nem acho ela ruim, quando é desejada...

beijo!

.leticia santinon disse...

Olha só, você é uma poeta.

Diana Borges disse...

Leio sempre.. Nunca comento.
Mas dessa vez é diferente, tenho pesos em meu casaco também.

Lubi disse...

Minha querida, Sté.

Que emoção.

Saber que nos encontramos além de conversar, na inspiração.
Sua amizade me dá a sobriedade que os outros veem loucura. A sobriedade de saber quem sou e viver isso.

Obrigada por isso.
Obrigada por tudo.
Sempre.